Economia

Paraguaio aproveita real desvalorizado e vai às compras no Brasil

A desvalorização do real, as incertezas na recuperação da economia e o baque no setor de turismo causado pela pandemia do novo coronavírus têm ajudado a mudar o comportamento de consumidores na fronteira com o Paraguai.

Comerciante na Varejo Paulista, loja de calçados em Foz do Iguaçu (PR), Nasser Hassan tem trocado o “muito obrigado” pelo “muchas gracias”. Ao mesmo tempo em que o número de turistas brasileiros caiu, ele estima que o movimento de consumidores paraguaios em seu estabelecimento aumentou cerca de 50%, para varejo e atacado, em relação ao ano passado.

“Além de sempre terem preferido os calçados brasileiros, eles começam a sentir que a mercadoria está mais barata. A gente perde por um lado, já que o consumidor brasileiro ficou com menos renda, mas compensa, em partes, com os clientes de fora”, conta.

A desvalorização do real, as incertezas na recuperação da economia e o baque no setor de turismo causado pela pandemia do novo coronavírus têm ajudado a mudar o comportamento de consumidores na fronteira com o Paraguai –e os vizinhos agora aproveitam o câmbio.

Comerciantes de atacados da região também comemoram a maior procura –sobretudo por alimentos não-perecíveis, embutidos, ovos e laticínios– pelo lado brasileiro da fronteira, apesar de a inflação dos alimentos ter pesado durante a pandemia.

Desde o início do ano, a moeda paraguaia, o guarani, se valorizou em relação ao real. No fim de 2020, era preciso ter 1.327 guaranis para trocar por R$ 1. Agora, são necessários 1.200. Em relação ao dólar, o guarani se valorizou 5% desde o começo do ano, enquanto o real caiu cerca de 4%.

De janeiro a abril, mais de 40 mil paraguaios entraram no país, segundo a PF (Polícia Federal), sobretudo em janeiro, que concentrou metade das visitas. Em todos os meses, as saídas de paraguaios superaram as entradas, o que também indica viagens curtas, como idas ao comércio e aos hospitais da fronteira. A PF não informou o número de brasileiros que foram ao Paraguai no mesmo período.

“Os produtos no Brasil ficaram em torno de 10% mais baratos para eles”, avalia o presidente do Sindilojas, Sindicato Patronal do Comercio Varejista de Foz do Iguaçu, Itacir Mayer. Ele confirma que, enquanto a maior parte das compras de brasileiros no Paraguai se concentra em eletrônicos, os vizinhos vêm ao Brasil para comprar alimentos, roupas e calçados.

A Ponte da Amizade, que liga Foz do Iguaçu e Ciudad del Este, ficou fechada por conta da pandemia por mais de seis meses, até reabrir em outubro passado, o que prejudicou o comércio. Em abril, com a ponte reaberta, a entrada de paraguaios no país foi seis vezes maior do que no mesmo mês do ano passado.

“Por mais que a pandemia tenha atrapalhado as viagens, Ciudad del Este perdeu mais consumidores estrangeiros do que Foz, já que a compra de eletrônicos lá passou a ser menos vantajosa”, diz Mayer. Ao mesmo tempo, os produtos brasileiros que mais interessam aos paraguaios são essenciais.

Ele avalia que o aumento do comércio para os vizinhos tem ajudado a compensar partes das perdas com o turismo. Como Foz do Iguaçu também era sede de diversos eventos corporativos, o setor hoteleiro sentiu o baque no turismo de negócios.

O Parque Nacional do Iguaçu, por exemplo, recebeu 15.270 visitantes no Ano Novo, segundo o governo do Paraná. O movimento representou uma redução de 44% em relação ao ano anterior, quando foram registradas 27.286 visitas, sendo que metade da economia do município depende do turismo.

“A cidade dependia tanto dos turistas que visitavam as cataratas e deixaram de vir por causa da Covid-19 quanto dos que vinham fazer compras do lado paraguaio e desistiram pela alta do dólar”, diz Meyer.

Quem tem sentido essa queda na procura é Rodrigo Müller, que organiza viagens de ônibus para Foz do Iguaçu e Paraguai. Ele estima que o movimento de passageiros para compras em Ciudad del Este tenha caído 40%, tanto pela crise sanitária quanto pelo dólar. Atualmente, a maior parte do público é de famílias que fazem pequenas compras.

“As viagens continuam saindo, mas é outro público. Agora, são pessoas que sonham em conhecer a região e voltam com algum eletrônico, mesmo não sendo tão mais em conta”, diz. A maior queda para quem organiza viagens na região foi de passageiros interessados em revender produtos no Brasil, diz. “Hoje, não vão mais. Não compensa.”

“Aqui na loja, quando o ar-condicionado quebrou, a gente resolveu comprar no Brasil mesmo. O preço no Paraguai não compensava e ainda conseguimos parcelar”, conta o comerciante Hassan.

Morando na fronteira
40 mil
é o número de paraguaios que visitaram o Brasil este ano. Com reabertura da ponte em Foz do Iguaçu, o movimento em abril foi seis vezes maior que em abril de 2020
15.270
foram os visitantes recebidos no Parque Nacional do Iguaçu no Ano Novo, queda de 44% ante o ano passado
Fontes: Polícia Federal e governo do Paraná

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